O que a palavra museu evoca para você? Coisa antiga? Quadros famosos? Excursão da escola? É verdade que tem tudo isso nestes locais, mas os museus são muito, muito mais.

Quem entra pela porta da frente certamente mergulha num mundo de cultura e ciência, mas o pessoal que trabalha “nos fundos” vai bem além de apenas preparar os objetos e experiências que serão vistos.

Os museus também fazem e subsidiam diversas pesquisas. Não por acaso, grande parte deles integra ou é parceiro direto de universidades.

Neste post você vai degustar um pouquinho de todo este conhecimento a partir das redes sociais de três museus brasileiros bem diferentes entre si, tanto em tamanho como em temas abordados. Selecionei um objeto, uma pesquisa e uma exposição de cada.

Museu da Inconfidência Mineira

O museu

Foto: Ricardo André Frantz/Wikimedia

Na década de 1930, Getúlio Vargas determinou que os restos mortais dos participantes da Inconfidência - que haviam sido degredados e morreram na África - fossem trazidos de volta ao Brasil. Assim foi criado, na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica (Ouro Preto, MG), o Panteão dos Inconfidentes. Mais tarde, foi inaugurado no mesmo imóvel o Museu da Inconfidência Mineira.

Um objeto: instrumentos de dentista

O que você sente ao olhar para objetos como o boticão dessa foto, e se imaginar na cadeira do dentista? 👀

Este instrumental do século 18 é semelhante ao utilizado por Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O conjunto original do alferes está no acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro.

Uma pesquisa: a devassa

O Arquivo Histórico do Museu da Inconfidência traz farto material para investigação de historiadores, de mapas antigos a partituras musicais e documentação oficial.

Isso inclui o famoso conjunto processual "Autos de Devassa da Inconfidência Mineira" (há uma edição disponibilizada ao público em livro e na internet, mas não é uma versão completa).

⚖ Eis o trecho da sentença de Tiradentes que determina sua pena - eu não desejaria uma "morte natural" dessas nem para meu pior inimigo! 😮

“Joaquim José da Silva Xavier — Morte natural, levada a cabeça para Vila Rica e os quartos para as estradas de Minas, principalmente na Varginha e Cebolas; infâmia para os filhos e netos, confisco de bens, casa arrasada e salgada, e no meio das ruínas um padrão, que declare o motivo”

Uma exposição: Sala da Inconfidência

Dê o play ali em cima e viaje pela história através do acervo exposto em uma das salas do Museu, a Sala da Inconfidência. A sala também guarda os restos mortais de duas mulheres notáveis: Marília Doroteia de Seixas, a inconfidente que inspirou Tomás Antônio Gonzaga a escrever "Marília de Dirceu"; e Bárbara Heliodora, poetisa e ativista política.

Museu Paraense Emilio Goeldi

O museu

Entrada do Parque Zoobotânico do Museu Paraense Emílio Goeldi, uma reserva no coração de Belém (PA). Foto: Divulgação - Embratur

Localizada no centro de Belém (PA), a sede do museu fica dentro de um Parque Zoobotânico de 5,4 hectares, que é abrigo para mais de 1.700 animais, 2 mil plantas e 14 monumentos e edifícios dos séculos 19 e 20. Conta ainda com um campus de pesquisa na periferia da cidade e com a Estação Científica Ferreira Penna, no munícipio de Melgaço.

O Museu Goeldi sedia pesquisas em áreas como zoologia, botânica, arqueologia, linguística e paleontologia.

Um objeto: urna funerária Marajoara

Urna funerária Marajoara, estilo Joanes Pintado. Acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi, Reserva Técnica Mário Ferreira Simões. Foto: Marcele Rollim.


Os marajoaras foram uma sociedade pré-colombiana que viveu na Ilha do Marajó há cerca de 1600 anos. Sua cultura material é expressa nas sofisticadas cerâmicas, desenhos e pinturas. Um exemplo é a urna funerária retratada aqui, que está na reserva técnica do Museu Goeldi.

"O virtuosismo que caracteriza essas cerâmicas e faz com que sejam 'armadilhas estéticas' age, ainda hoje, seduzindo o olhar de turistas, visitantes de museus, colecionadores e artesãos", define a arqueóloga Marcia Bezerra.

Ela é autora de artigo que reflete sobre o diálogo do artesanato atual com peças do passado, como mostrado no porta copos bordado inspirado na urna funerária.

Porta-copos com urna Joanes Pintado bordada, confeccionado pelas artesãs da Associação Educativa Rural e Artesanal da Vila de Joanes (AERAJ), ilha do Marajó. Foto: Marcia Bezerra

Uma pesquisa: peixes no deserto


Neste estudo com participação de pesquisadores do Museu Goeldi, uma equipe encontrou fósseis de jacarés e peixes em Urumaco, um deserto na Venezuela. Muitos desses animais vivem apenas dentro do bioma amazônico, a centenas de quilômetros dali, sendo um indício de que, há milhões de anos, a Amazônia se estendia até aquela região, hoje desértica.

(Eu sei o que você está pensando sobre o futuro da Floresta, porque também pensei 🙁)

Uma exposição: sentindo a floresta

Criada para permitir a interação do público com Museu durante a pandemia, "A floresta sensível" define-se como uma experiência para captar as muitas dimensões das plantas e compreender a coexistência do conhecimento científico com os saberes de povos tradicionais.

Museu de Zoologia da USP


O museu

No bairro do Ipiranga, em São Paulo (SP) o Museu de Zoologia guarda mais de 10 milhões de exemplares da biodiversidade brasileira e mundial. Parte das coleções zoológica, botânica, etnográfica e histórica está disponível para visitação do público, que acaba de ser reaberta. O vídeo acima faz um bom resumo do que você encontra por lá.

Um objeto: tigre-dentes-de-sabre

Os tigres-dentes-de-sabre não constituem uma espécie única, mas um conjunto delas. A mais conhecida viveu 10 mil anos atrás, durante o Pleistoceno, até ser extinta.

Suas patas robustas e longos caninos ajudaram a torná-los caçadores de grandes animais herbívoros. A espécie mais pesada, o Silodon populator, foi possivelmente um dos maiores felídeos que já existiu - podendo pesar mais de meia tonelada (você leu certo, 500 quilos de tigre!).

Uma pesquisa: bicho-pau

Esses insetos muito bem adaptados à camuflagem ainda foram pouco estudados no mundo. Por isso, seus hábitos de vida, principalmente os das espécies sul americanas, não são totalmente conhecidos. Em sua pesquisa de mestrado no Museu de Zoologia, Victor Ghirotto busca descrever em mais detalhes como eles vivem, incluindo, pela primeira vez, os dois sexos, além de larvas e ninfas (insetos imaturos).

Uma exposição: conhecer para preservar

Se nem sempre dá para termos contato com exemplares vivos, a taxidermia ajuda a ter uma amostra da biodiversidade ao reconstituir nas peças as características físicas dos animais.

E a experiência fica ainda mais interessante simulando o habitat das espécies, como nestes aquários da exposição principal do Museu de Zoologia. Na "água", tem pirarucu, tambaqui, surubim, piranha e dourado, entre outros. E no "cerrado", arara-canindé, lobo-guará, tamanduá-bandeira e muito mais.

Nota: falar que eles são "animais empalhados" pode ofender ou deprimir um taxidermista.

Esses animais empalhados ficaram tão esquisitos que até viraram meme

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