O silêncio das redes sociais para a imprensa
Arte: Rodolfo Almeida

Como plataformas bilionárias usam respostas evasivas para fugir de perguntas incômodas de jornalistas

Os procedimentos são meio básicos: sempre que investigamos algo que acontece nas redes sociais, especialmente se for irregular ou ilegal, o Núcleo entra em contato com as assessorias de imprensa das plataformas para saber suas posições e levantar outras informações relevantes. E, muito frequentemente, as respostas são insatisfatórias.

A praxe é enviar questionamentos em bullet points, de maneira sistemática e organizada, na esperança de serem respondidas ponto a ponto. Mas, muitas vezes, os retornos que recebemos são curtos, genéricos e insuficientes frente aos problemas apresentados e às perguntas feitas.


É importante porque...
  • Reticência de redes sociais para responder demandas da imprensa deixa várias questões sem respostas
  • Falar sobre a relação entre jornalistas e assessorias ainda é tabu na imprensa
  • Transparência ajudaria a jogar luz sobre problemas importantes sobre o impacto das redes na sociedade

Esse é um assunto interno sobre o funcionamento das engrenagens da imprensa e das assessorias de comunicação. E pode ser delicado, com jornalistas temerosos em desagradar grandes organizações que fornecem informações, financiamento institucional e até empregos para um segmento econômico que precisa de apoio.

Disclaimer: o Núcleo teve financiamento do Google e o Volt Data Lab participa de projeto financiado pelo Facebook. Veja nossa transparência.

Para entendermos como funcionam as respostas oficiais das redes sociais à imprensa, o Núcleo selecionou alguns exemplos que reforçam nossa tese de que as plataformas não se dispõem a responder a perguntas importantes e por vezes incômodas.

Não falta diligência: as redes sociais são atentas às demandas e ao noticiário e dão bastante valor aos veículos de jornalismo.

O problema, quase certamente, não vem das assessorias de imprensa terceirizadas, muito menos dos assessores intermediários ou até de representantes brasileiros, mas de políticas cuidadosamente pensadas e criadas a milhares de quilômetros de distância nos quartéis-generais do Vale do Silício ou em seus respectivos países.

Vale notar que não é objetivo nem missão do Núcleo fazer as empresas de redes sociais ficarem "mal na fita". Entendemos que elas possuem um trabalho muito difícil na conciliação entre liberdade de expressão e moderação de conteúdo, e que possuir milhões ou até bilhões de usuários acarreta problemas muito mais complexos do que podemos antecipar.

Mas, à medida que o impacto dessas redes na sociedade se torna cada vez maior, influenciando desde padrões de consumo, tendências culturais, saúde mental e eleições até vendas de artigos ilegais e mensagens extremistas, consideramos que elas precisam responder a questionamentos válidos, por mais difíceis que sejam.

Abaixo, selecionamos alguns casos para ilustrar a situação. Os casos não falam de nomes de assessores nem de empresas terceirizadas, e não consideram o vai-e-vem normal entre jornalistas e assessores, nem de conversas informais, somente as respostas finais fornecidas via canais oficiais.

FACEBOOK

Para uma reportagem sobre vendas irregulares (e potencialmente ilegais) de armas de fogo em grupos no Facebook, contatamos a assessoria de imprensa da empresa com as seguintes perguntas, em 29 de março deste ano:

  • Como funciona o monitoramento de anúncios de armas e partes?
  • Quantos posts foram derrubados por venda de armas nos últimos dois anos?
  • O Facebook notou um aumento em anúncios irregulares sobre vendas de armas nos últimos dois anos?
  • O que configura venda/troca/solicitação de armas para o FB? O post precisa trazer preço, link, contato?
  • Nas políticas de comunidade, o Facebook diz que permite anúncios publicados por “lojas físicas reais, sites legítimos, marcas ou agências do governo”. Qual o critério para estabelecer o que é uma loja física real ou um site legítimo?
  • Vendas de acessórios de armas (coldres e carregadores, por exemplo) são permitidas?
  • É possível impulsionar publicações de armas?
  • As regras para o Instagram são as mesmas no que diz respeito à venda e compra de armas de fogo?
  • A venda de armas brancas, como facas, é permitida?

Após um vai e vem de emails nos quais foram solicitadas mais informações sobre nossa pauta, além de detalhes específicos, o posicionamento oficial da empresa em 31 de março foi somente:

Removemos as publicações indicadas pela reportagem que feriam as nossas Políticas Comerciais. Não permitimos anúncios ou a compra, venda ou troca de armas de fogo, munições e explosivos entre pessoas. As atividades comerciais por lojas, desde que respeitem os Padrões da Comunidade do Facebook, são permitidas. Combinamos tecnologia de inteligência artificial e revisão humana para identificar conteúdos que possam violar essas regras.

A maioria das perguntas específicas não foi respondida e o que foi falado consta na política de comunidade da plataforma, que nós já havíamos lido e constatado que não serve para resolver o problema -- daí a necessidade de falar diretamente com a empresa.

INSTAGRAM

Para uma reportagem sobre sorteios irregulares no Instagram, a resposta foi ainda mais evasiva. Enviamos três perguntas por email em 21 de abril:

  • O que dizem as diretrizes de comunidade do Instagram sobre esse tipo de comportamento e post?
  • O Instagram impõe algum limite a esse tipo de publicação (número de comentários, por exemplo)?
  • O Instagram já retirou algum post desse tipo do ar?

A resposta foi essa:

Estamos investigando os perfis citados na matéria. No link abaixo você pode encontrar mais detalhes sobre as regras do Instagram para sorteios e outros tipos de promoção na plataforma - link. E aqui estão as Diretrizes da Comunidade do Instagram que devem ser respeitadas em todo conteúdo publicado.

A primeira pergunta foi respondida com um link, mas as outras duas certamente não.

Num email subsequente, nossa repórter perguntou: "Que tipo de ação o Instagram poderá tomar após essa investigação?". Não houve resposta a esse email.

Em outra matéria, novamente sobre sorteios, para a qual enviamos duas simples perguntas para a assessoria de imprensa, a resposta foi na mesma linha.

Nosso email, datado de 15 de junho, perguntava:

  • O Instagram já recebeu notificação do Ministério da Economia ou de autoridades sobre sorteios ilegais?
  • Quais as medidas adotadas pela plataforma até hoje sobre sorteios? Lemos as diretrizes de comunidade, mas queremos entender ações concretas que tenham tomado, e não apenas o que o código de conduta diz. Já foram removidos ou suspensos perfis que tenham realizado sorteios?

E a resposta veio no dia seguinte:

As Diretrizes da Comunidade do Instagram devem ser respeitadas em todo conteúdo publicado, inclusive as que tratam da conformidade às regras e regulamentos aplicáveis a promoções. Violações das políticas do Instagram podem levar à remoção de conteúdo ou conta. Estamos abertos e mantemos diálogo com as autoridades competentes.

Junto, veio o link das regras do Instagram para promoções.

Duas perguntas muito simples e diretas, mas importantes, que poderiam facilmente ter sido respondidas sem ônus para o Instagram, afinal qual a grande consequência em revelar se já recebeu notificação oficial do Ministério da Economia?

O tom evasivo reflete puramente as orientações textuais das políticas de comunidade, e não as perguntas feitas.

TWITTER

Não são apenas as empresas do conglomerado de Mark Zuckerberg que fazem isso. Para uma reportagem sobre um processo criminal envolvendo publicações no Twitter, entramos em contato com a plataforma com as seguintes perguntas:

  • Em quantos casos judiciais ou inquéritos policiais o Twitter teve que entregar dados de usuários no Brasil?
  • Em decisão sobre o descumprimento da ordem judicial pelo Twitter, o juiz menciona "Mais uma vez". Há casos semelhantes em que o Twitter se recusou a fornecer informações à Justiça?
  • O Twitter vê algum conflito entre a legislação em vigor e os pedidos da justiça em casos assim?
  • Tem crescido na justiça o número de pedidos para processos criminais?
  • O Twitter vê perigo à liberdade de expressão quando tuítes podem ser utilizados para processos criminais?

A resposta, embora consideravelmente mais elaborada do que as já mencionadas acima, ainda assim não respondeu nossos pontos diretamente.

Não comentamos casos específicos, mas o Twitter atende a ordens judiciais que requerem quebra do sigilo de contas quando estão presentes os requisitos legais cabíveis para tal medida. Essa postura decorre do compromisso com as leis locais e o respeito às ordens e requisições que nos são destinadas.

Em linha com a conduta adotada em qualquer requisição de informações referentes às pessoas que usam o seu serviço, o Twitter tem por premissa defender, à luz das regulações locais, a liberdade de expressão e privacidade dos indivíduos envolvidos nas referidas ordens.

Diante de seu compromisso com a transparência, o Twitter divulga periodicamente as requisições legais recebidas ao redor do mundo. O relatório mais recente está disponível neste link.

OUTRAS REDES

Na reportagem sobre a acirrada disputa entre Kwai e TikTok no Brasil, quisemos entender como funcionava o esquema de "bônus" que elas oferecem, sob o qual pagam usuários apenas para assistir por horas a fio.

Para o TikTok, enviamos perguntas em 18 de maio, a maior parte delas sobre informações estratégicas que não foram respondidas, embora seja compreensível que empresas privadas não queiram fornecer informações fechadas sobre seus negócios. Nas outras informações que solicitamos, fomos atendidos.

Para a mesma reportagem, enviamos também vários questionamentos ao Kwai, no mesmo dia. Para o mérito da empresa chinesa, todos os pontos foram respondidos de forma satisfatória, embora algumas perguntas tenham ficado sem resposta exata. Questionamentos posteriores também foram respondidos.

Já o Telegram nunca respondeu a nenhum pedido nosso por posicionamento. O contato é muito difícil, e a empresa não disponibiliza contatos de representantes -- mais recentemente disponibilizaram um bot de imprensa o qual nunca deu retorno para o Núcleo.

COMO FIZEMOS ISSO

Compilamos emails enviados ao longo de 2021 para várias assessorias de imprensa, de diversas redes, e selecionamos os casos que mais chamaram nossa atenção.

Por Sérgio Spagnuolo
Edição Alexandre Orrico

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