Campanha de Bolsonaro turbinou anúncios com vídeos proibidos pelo TSE pós 7 de setembro

Decisão proibiu que Bolsonaro use imagens suas em atos oficiais do Bicentenário na campanha #NúcleoNasEleições

Reportagem Bruno Fonseca, Matheus Santino

Essa reportagem foi originalmente publicada pela Agência Pública e faz parte do Sentinela Eleitoral, projeto que investiga e analisa as redes de manipulação do debate público (fake news) nas eleições em parceria com o Berkman Klein Center for Internet & Society da Universidade de Harvard.


A campanha de Jair Bolsonaro gastou mais de R$ 1 milhão em publicidade nas redes do Google e no YouTube depois dos atos de 7 de setembro. Esses anúncios incluem vídeos com trechos dos eventos de comemoração do Bicentenário, o que foi proibido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Segundo apuração da Agência Pública, a campanha do presidente pagou R$ 1,3 milhão em publicidade ao Google entre 8 e 21 de setembro. Esse valor impulsionou 71 anúncios. Para se ter uma ideia, isso é mais da metade de tudo que a campanha gastou com publicidade na plataforma desde o início dos registros, em julho deste ano.

Bruno Fonseca/Agência Pública

Uma das peças que mistura explicitamente as manifestações do Bicentenário com a propaganda de Bolsonaro é um vídeo de 2 minutos e meio, no qual a campanha gastou de R$ 7 mil a R$ 8 mil em impulsionamento e que teve até 1,5 milhão de visualizações. A propaganda traz imagens da multidão nos atos em Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, sobre as quais uma locutora afirma: “Nosso Brasil está comemorando 200 anos de independência e a gente foi para a rua comemorar esse passado, mas também para dizer que Brasil a gente quer para o futuro”.

Em seguida, o vídeo traz trechos do discurso do presidente em Brasília, no evento oficial de celebração do Bicentenário. Na gravação, do alto do palanque presidencial e ao lado de Michelle, Bolsonaro grita para a multidão que “hoje vocês têm um presidente que acredita em Deus, um governo que defende a família. Somos uma pátria majoritariamente cristã que não quer a liberação das drogas, a legalização do aborto, que não admite a ideologia de gênero”. Além do discurso do presidente, o vídeo traz falas de manifestantes em Brasília e no Rio.

A utilização de imagens do Presidente em atos oficiais do Bicentenário em campanhas políticas foi proibida pelo TSE desde o dia 10 de setembro. Na liminar de Benedito Gonçalves, Corregedor-Geral da Justiça Eleitoral, ele decide que “sejam intimados os candidatos Jair Messias Bolsonaro e Walter Souza Braga Neto para, no prazo de 24 horas, cessar a veiculação de todo e qualquer material de propaganda eleitoral, em todos os meios, que utilizem imagens do Presidente da República capturadas durante os eventos oficiais de comemoração do Bicentenário da Independência, atos realizados em Brasília/DF e no Rio de Janeiro/RJ”.

A decisão também estabelece uma multa diária de R$ 10 mil e acrescenta que os candidatos devem “se abster de produzir novos materiais que explorem as citadas imagens”.

A Pública questionou o TSE se houve alguma aplicação de multa à campanha de Bolsonaro, mas o tribunal não respondeu até esta publicação.

A reportagem também perguntou à assessoria de imprensa do Google sobre o vídeo, mas não obteve resposta.

A decisão também citou diretamente um vídeo da EBC, que também utilizava imagens das comemorações do Bicentenário. Esse vídeo foi deletado do YouTube.

Em uma nova decisão nesta quarta-feira, 21 de setembro, o corregedor determinou que as próprias plataformas retirem diversos vídeos de Bolsonaro nos atos do Bicentenário. A liminar cita diretamente as redes Facebook, Instagram, Kwai, Twitter e LinkedIn. O Google e o YouTube não foram citados nessa decisão.

Os 71 anúncios somados tiveram cerca de 90 milhões de exibições. Três vídeos empataram entre os mais vistos, com 10 milhões de visualizações cada um. Entre eles, um vídeo de Michelle Bolsonaro falando sobre a transposição do Rio São Francisco, falas antigas de Geraldo Alckmin sobre o ex-presidente Lula e uma peça genérica de Bolsonaro cumprimentando apoiadores com a narração “o homem certo, na hora certa”.

São Paulo foi o estado com o maior gasto nas publicidades, totalizando R$ 301 mil entre as duas semanas analisadas. Isso é mais do que o dobro do segundo colocado, Minas Gerais, que teve um total de R$ 125 mil.

Do R$1,37 milhão gasto com os anúncios nesse período, R$ 1,01 milhão foi destinado à produção de vídeos, sendo 73,9% do total. Os outros R$ 359 mil foram usados em anúncios que rodaram em texto.

PL gastou mais de R$ 40 mil no Facebook com campanha sobre 7 de setembro

Os atos do Bicentenário da Independência não foram explorados apenas pela campanha de Bolsonaro no Google. A Pública encontrou seis anúncios patrocinados pelo Partido Liberal (PL) nas redes do Facebook e Instagram que exploram imagens das manifestações a partir do dia 7 de setembro.

Ao todo, o partido gastou entre R$ 43 mil e R$ 51 mil para impulsionar os seis conteúdos. Elas geraram pelo menos 2,9 milhões de impressões para usuários do Facebook e Instagram.

Anúncio patrocinado pelo PL nas redes sociais/Reprodução

O anúncio no qual o PL gastou mais dinheiro foi uma postagem que pede que as pessoas “enviem um vídeo para o presidente” e “grave o seu pequeno cantando o hino nacional”. A postagem é acompanhada do seguinte texto: “É hora de mostrar todo o seu patriotismo! Junte a família e grave seu vídeo neste #7deSetembro #ÉJairouJáEra #Bolsonaro2022”.

Somente neste vídeo, o PL gastou entre R$ 20 mil a R$ 25 mil em patrocínio. O conteúdo gerou mais de 1 milhão de impressões.

A Pública mostrou como a hashtag #7deSetembro foi levantada por perfis bolsonaristas durante o dia do Bicentenário para comemorar os atos e criticar pesquisas eleitorais.

Em outro conteúdo impulsionado, o PL utiliza uma imagem de Bolsonaro ao lado de Michelle no Rolls-Royce oficial dos presidentes brasileiros. Na imagem, o partido escreveu “7 de setembro, é Jair ou já era”. Esse anúncio custou entre R$ 350 mil a R$ 400 mil e gerou entre 350 mil a 400 mil impressões.


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