Um estudo interno do Facebook publicado em julho de 2020 mostrou que a percepção de alcance de imagens de exploração infantil e de violência gráfica no Brasil é bem maior do que em outros aplicativos.
Essas informações fazem parte de documentos revelados à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) e fornecidas ao Congresso dos Estados Unidos de forma editada pela assessoria legal de Frances Haugen para censurar informações que possam comprometer outras pessoas, como nomes e outros dados pessoais. As versões editadas recebidas pelo Congresso dos EUA foram revisadas por um consórcio de veículos de notícias. O Núcleo Jornalismo teve acesso aos documentos.
É importante porque...
- Mostra que o Facebook sabia o quão sensíveis são os usuários brasileiros com violência em seus apps, em comparação a outros apps
- Pode indicar problemas na forma como os algoritmos da empresa funcionam
"O alcance de imagens de exploração infantil no Facebook é 5
pontos percentuais maior do que no app mais próximo no BR (Brasil) e CO (Colômbia)", mostrou o cabeçalho do slide com a informação, que tem um gráfico com o comparativo entre apps por país.
Logo abaixo no documento, a recomendação em destaque para que fosse investigado "por que o alcance é maior do que em outros apps no BR e na CO".
Os outros apps avaliados foram WhatsApp, Instagram, Messenger, Snapchat, Twitter, Line e TikTok.
Como parte do acordo para publicação do material, foi solicitado para que os veículos não publicassem prints de documentos.
O jornal Folha de S.Paulo também publicou reportagem neste sábado (6.nov) sobre o estudo.

Resposta do Facebook
Contatado, o Facebook (que agora se chama Meta), disse sobre a pesquisa, em nota:
"Os resultados desta pesquisa não medem a prevalência ou a quantidade de um determinado tipo de conteúdo nos nossos serviços. A pesquisa mostra a percepção das pessoas sobre o conteúdo que elas veem nas nossas plataformas. Essas percepções são importantes, mas dependem de uma série de fatores, incluindo o contexto cultural. Divulgamos trimestralmente a prevalência de materiais que violam nossas políticas e estamos sempre buscando identificar e remover mais conteúdos violadores."
Em uma publicação de 23.out.2021 em seu site institucional em português, o Facebook destacou seus investimentos sobre países em risco:
"Já investimos US$13 bilhões em segurança globalmente desde 2016 - estamos a caminho de investir US$5 bilhões só neste ano - e temos mais de 40 mil pessoas trabalhando para manter as pessoas seguras nos nossos aplicativos. Também investimos em pesquisas internas para ajudar a identificar de forma proativa onde podemos melhorar nossos produtos e políticas"
VIOLÊNCIA GRÁFICA
Quando o assunto é violência gráfica, o aplicativo de Mark Zuckerberg também se sai pior do que a maioria no Brasil (com destaque), na Colômbia, na Indonésia e na Índia.
"Alcance de violência gráfica no WhatsApp é também maior do que apps parecidos no Brasil", diz uma nota do slide.
"Precisamos olhar seriamente em por que a violência gráfica continua a ter maior alcance no Facebook e no WhatsApp (BR)", segundo recomendação destacada.
Na Colômbia, a percepção de violência gráfica no Facebook é 18
pontos percentuais maior do que no aplicativo em segundo lugar (o WhatsApp, também do Facebook) – no Brasil é 7
pontos percentuais, e 5
na Indonésia.

DESINFORMAÇÃO
Facebook (primeiro lugar) e Whatsapp também têm mais alcance de desinformação do que outros apps no Brasil e na Colômbia. Em terceiro lugar está o Twitter, seguido de Instagram, Messenger e Snapchat.
Como fizemos isso
O Núcleo foi convidado a participar do consórcio de veículos internacionais que possuem acesso aos documentos trazidos à tona pela ex-funcionária do Facebook Frances Haugen, no que ficou conhecido como Facebook Papers.
Esses documentos foram primeiramente noticiados pelo Wall Street Journal, que chamou a série de Facebook Files.
