Ajeito-me na cadeira para escrever um post para ser publicado no Dia das Mulheres. Sobre o que falar? Penso em trazer contribuições das cientistas que foram invisibilizadas, ou pelo menos não reconhecidas como mereciam. Mas me dou conta da quantidade crescente de livros, reportagens e sites que já contam suas histórias, e as celebram - embora as injustiças do passado nunca possam ser verdadeiramente corrigidas.

Para algumas coisas o tempo já é isso: passado. A lágrima de revolta, tristeza e a frustração de cada uma dessas mulheres já não pode ser apagada; muitas vezes elas nem estão mais entre nós. Além disso, não há como eliminar o grande "e se" e trazer à realidade tudo mais que elas também poderiam ter realizado pela humanidade, mas não fizeram porque não tiveram incentivo ou foram podadas. Colocadas no fim de uma fila que sequer deveria existir, e onde o simples "mérito" não garante as melhores senhas.

Enfim, desisto de fazer mais um texto sobre essas mulheres, por quem nada mais podemos fazer, exceto preservar a memória e tê-las como inspiração, como fazemos com algumas destacadas nesse texto. Volto-me, então, para aquelas que estão mais próximas, vivendo nesta geração, e muitas vezes passando por coisas parecidas comigo.

Não é preciso olhar apenas para trás. É verdade que aquelas pioneiras fizeram muito, até mais do que podiam, pavimentando o caminho para a gente. Acontece que nosso tempo hoje ainda é muito mais de lutas e desafios do que de glórias; não só para as mulheres que fazem, como para as que buscam comunicar ciência.

"A vida não precisa ser fácil, desde que não tenha sido vazia."
Lise Meitiner (1878-1968). Física que descobriu e explicou o funcionamento da fissão nuclear. Foi descrita por Einstein como a "Marie Curie da Física". Judia, fugiu da Alemanha na época do Nazismo, e não quis retornar para dar continuidade às pesquisas com seu parceiro Otto Hahn, que acabou recebendo sozinho o Nobel pelos trabalhos.

Algumas ocasiões vi divulgadoras científicas sendo corajosas o suficiente para expor suas vulnerabilidades nas redes sociais: relatando baixa auto estima e falta de crença na própria capacidade, sentimentos de culpa, depressão, ansiedade. Por outras, elas me confidenciaram, reservadamente, os momentos ruins por que passavam. A uma carreira acadêmica que por si mesma não é algo tranquilo, juntavam-se histórias de assédio moral e sexual, pressões descabidas, apropriação masculina do trabalho delas. Coisas que deixam marcas e atrapalham a vida pessoal e profissional dessas mulheres, sendo gatilhos ou contribuindo muito para o sofrimento mental.

Para completar, nas mídias sociais, em que muitas fazem a importante tarefa de compartilhar o conhecimento científico com o público, são atacadas com frequência maior pelo seu gênero. Comentários sobre sua aparência física, tentativas de desacreditar a condição que têm de falarem do que sabem, provocações.

Sempre tentei colocá-las para cima, incentivar... Mas não deixava de me sentir impotente por não poder fazer um pouco mais.

Hoje eu venho aqui de novo, com tudo que tenho - as palavras - , tentar fazer um tantinho que seja para não deixar essas mulheres desanimarem. Porque, sabe, eu não quero viver para sempre num mundo em que os homens tenham ao mesmo tempo a primazia no fazer da ciência e no direito de falar dela e serem ouvidos. E respeitados.

"Acima de tudo, não tema os momentos difíceis. O melhor vem deles."
Rita Levi Montalcini (1909-2011). Neurologista e senadora italiana. Descobriu o Fator de Crescimento Nervoso. Ganhadora do Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1986. Certa vez, quando ia dar uma palestra no exterior teve a bagagem extraviada. Passou ferro na camisola, vestiu e subiu ao púlpito. Falou brilhantemente, como de costume. Foto: The Nobel Prize Foundation

Espelhos

Recentemente comecei a ler o novo livro da matemática Tatiana Roque, que fala da história da ciência de uma perspectiva crítica, trazendo reflexões para um futuro possível da espécie humana neste planeta. Mas não é da qualidade incontestável do texto que quero comentar aqui, e sim do meu espanto ao ouvir mentalmente a voz de uma narradora mulher em um livro sobre ciência. Eu tenho lido autor atrás de autor de divulgação científica, e sentia muita falta da perspectiva feminina num livro deste gênero em português. Inesperadamente, me senti fortalecida. E capaz. Tudo isso apenas por ler uma autora mulher.

"A primeira coisa sobre o empoderamento é entender que você tem o direito de estar envolvida. A segunda é que você tem contribuições importantes a fazer, e a terceira é que você tem de se arriscar para fazer essas contribuições."
Mae Jemisson (1956- ) Astronauta, educadora e médica. Primeira mulher afro-americana no espaço, fez experimentos com células ósseas enquanto estava em missão. Fã da série Star Trek, que a inspirou a buscar a carreira espacial, ao ver pessoas de diferentes gêneros e raças trabalhando juntas. Foto: Nasa

O lugar onde quero chegar com este relato é uma mensagem simples para elas, mas que espero ressoar, principalmente nos piores momentos. Mulheres que falam de ciência, nas redes e fora delas: entendam o quanto a voz de vocês é importante. Para o mundo todo, mas talvez mais ainda para outras que seguem ou desejam seguir um caminho parecido.

Não peço que me prometam que nunca vão desistir, pois cobranças vocês já têm demais (e tudo que conquistaram até aqui já é para lá de suficiente).

Eu só quero que saibam que vocês fazem muita diferença, e torço para que, enquanto for possível, e assim desejarem, continuem a nos inspirar.

''Na natureza, nada existe sozinho.''
Rachel Carson (1907-1964). Bióloga marinha e escritora premiada, responsável pelo despertar da consciência ambiental de um grande público. Por seus trabalhos e alertas, sofreu uma campanha difamatória da indústria de pesticidas. Foto: Smithsonian Institution

Contemos umas com as outras, porque eu sei que o caminho não é fácil. Mas às vezes olhar para quem está andando ao lado da gente muda tudo. Que eu possa, ao me virar, encontrar na presença de vocês ali, na mesma rota, a força de que eu também preciso.

Dedico essa mensagem a todas vocês, cientistas e divulgadoras do presente, com quem tenho o "imenso prazer de dividir um planeta e uma época".

(Com um carinho especial para Aline Carvalho, Aline Ghilardi, Bruna Vaz, Camila Esperança, Lucy Souza, Mariella Patti, Marina Mendonça, Márcia Jamille, Mellanie Dutra, Nina da Hora, Roberta Duarte e Rossana Soletti)

  • Informações biográficas das cientistas consultadas em "As cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo", livro de Rachel Ignotofsky.
  • Sobre Rachel Carson: www.rachelcarson.org/

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