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Ser jornalista no Brasil é estar ferrado e mal pago: as agressões à nossa categoria aumentaram mais de 105% no ano passado e greves pipocam no país por conta de salários atrasados e péssimas condições de trabalho.

Em meio à esse clima agradável nós temos que pensar em estratégias mirabolantes para que nosso conteúdo seja consumido depois de produzido. Todos os dias nas redações jornalistas pensam em como fazer pessoas clicarem em links e encorajar atos milenares esquecidos (como o de ler um texto do começo ao fim).

O problema é que muitos dos grandes veículos no Brasil apostam no paywall, modelo de negócios meio antidemocrático. Paradoxal querer o maior número possível de visitantes mas ao mesmo tempo colocar uma PAREDE entre o leitor e o conteúdo, que pode ser derrubada apenas com dinheiro (ou com táticas pouco éticas como usar o serviço outline).

São muitos os contras:

  • Impede a ampliação de números de audiência, já que tranca muita gente pra fora;
  • Exclui grupos vulneráveis, que não podem pagar, e contribui para a elitização da informação;
  • Limita o combate à desinformação, que é sempre gratuita e viaja mais rápido do que as notícias verdadeiras;
  • Muitas vezes apresenta falhas técnicas como logins que não funcionam direito;
  • Irrita leitores;

O brasileiro, que lê cada vez menos e está descrente com o jornalismo, não vai sentir vontade de consumir notícias se isso significar uma transação financeira obrigatória.

O paywall pode servir a propósitos específicos, como no caso de acesso a aplicações tecnológicas e benefícios exclusivos para membros, mas sou contra o uso para limitar o acesso a conteúdo jornalístico.

Segundo o Datafolha, o índice de pessoas que confiam muito na imprensa caiu de 21% para míseros 18% em 2021; 48% disseram confiar pouco. Ou seja, pra que acrescentar um obstáculo a mais e COBRAR da pessoa que já não tá muito disposta a acreditar no jornalismo?

O número de assinaturas digitais cresceu 25% em 2020, se considerados os dez maiores jornais do país. Pandemia, governo Bolsonaro e promoções agressivas são parte do motivo. Mas o número ainda é insuficiente para frear a queda de 33% na circulação impressa.

Quem assina, se compromete com poucos. O Relatório de Notícias Digitais do Instituto Reuters diz que a média é de uma única assinatura digital de veículo jornalístico em quase todos os países que fizeram parte da pesquisa.

E ao cobrar por informação paywall contribui para manter pessoas mais vulneráveis longe da informação. As classes sociais A e B predominam entre o público dos veículos, chegando a 80% em alguns dos maiores jornais do país, segundo estudo de dois pesquisadores da UFMT com dados do IVC.

Por outro lado, a desinformação é sempre gratuita e se espalha seis vezes mais rápido do que notícias verdadeiras. Sabemos que grupos  no WhatsApp estão virando a regra para o compartilhamento e discussão de notícias.

Tá, mas jornalismo de qualidade exige recursos.

Sim, mas há outros caminhos muito além do paywall, pouco explorados no Brasil, que podem ser úteis na manutenção da saúde financeira de um veículo jornalístico.

Quase todos eles passam pela construção de uma comunidade forte. Quanto mais leal o leitor, mais ele estará disposto a apoiar o veículo jornalístico, seja com dinheiro ou com trabalho voluntário.

Não sou eu quem está dizendo e sim boa parte dos textos no Membership Guide, material que reúne experiências de mais de 50 redações em cinco continentes, traduzido pelo Insper.

Investimento em comunidade leva redações a um crescimento mais rápido, sustentável e com maiores possibilidades de receitas, inclusive com contribuição financeira do leitor, mas sem precisar aplicar um paywall . Para que isso aconteça, as organizações precisam escutar os leitores e desenhar formas para que eles possam participar.

Linha Fina é uma editoria de opinião que reflete o posicionamento do Núcleo Jornalismo

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