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Se tem uma coisa que a última década de uso intenso de redes sociais mostrou para as pessoas é que, apesar do discurso, as grandes empresas de tecnologia – especialmente redes sociais – não vão percorrer grandes distâncias pela privacidade dos usuários. O modelo de negócios da maioria delas reside justamente no rastreamento das pessoas.

Não é à toa que as novas políticas de privacidade da Apple nem bem entraram em vigor e já custaram estimados US$10 bilhões a Facebook, Snap, Twitter e YouTube, e elas não estão felizes com isso.

Violações de privacidade de dados de usuários, mesmo dentro da lei, são praticamente uma pandemia virtual. E, diferentemente do que fez na pandemia, a imprensa não faz um bom trabalho cobrindo o tema da maneira que deveria.

Claro, há boas reportagens por aí, mas a cobertura de privacidade não merece apenas uma amostra esparsa apenas quando temos um megavazamento de dados ou quanto aplicativos mudam suas regras: é necessária uma vigilância constante do jornalismo sobre a forma como as plataformas usam nossos dados.

Assim como acontece com mudanças climáticas, privacidade não é um assunto sexy. É um tópico arcano com o qual as pessoas possuem pouca afinidade e interesse, e não entendem como podem ser diretamente afetadas por isso. Com algum esforço, podemos explicar que quebra de privacidade não apenas afeta como urubus comerciais nos bombardeiam com ofertas insistentes e invasivas, mas pode resultar em perseguição de governos e até agentes privados.


Foi o que aconteceu na pandemia, quando governos do mundo todo, inclusive no Brasil, passaram a rastrear com medonha precisão os movimentos de seus cidadãos, a fim de garantir adesão a normas de isolamento social. Se o motivo foi justificado, afinal conter a pandemia e salvar vidas se sobrepôs a todo o resto, os métodos podem ter vindo para ficar para muito além do vírus.

E não adianta as empresas virem com a conversa de que dados são "anonimizados", ou seja, não possuem dados de identificação pessoal como nome ou email. Tirar informações pessoais de uma planilha agregada é algo incrivelmente importante, mas nem de longe serve como escudo contra abusos.

Utilizando dados de rastreamento de celular, em 2019 o New York Times explicou o passo a passo de como conseguiu identificar diversas pessoas baseado apenas na localização delas, após comprar legalmente um dataset com um broker de dados.

Apesar de as empresas dizerem que os dados são anonimizados, isso não impediu que um jornal descobrisse detalhes sobre o que várias pessoas fizeram em certo dia e horário.  

Em julho deste ano, uma publicação católica chamada The Pillar utilizou o mesmo tipo de dado e descobriu que um padre utilizava o aplicativo Grindr para ter encontros em boates gays, numa clara violação de privacidade e do intuito de possuir tais dados.

Em abril de 2020, o Intercept Brasil conseguiu fazer o mesmo caminho: identificou duas pessoas a partir de dados supostamente anonimizados vendidos pela operadora Vivo.

Esse mercado paralelo de dados, totalmente legal, é parcamente coberto pela imprensa. O Intercept Brasil, diga-se, é uma das poucas publicações brasileiras que tem feito uma cobertura regular e intensiva sobre o assunto, mérito principalmente de sua editora Tatiana Dias.

Recentemente, o Núcleo publicou uma reportagem em parceria com o Intercept e a ONG Data Privacy BR mostrando potenciais violações de privacidade em caso de uma prometida privatização da empresa estatal Serpro.

Megabanco de dados pessoais virou negócio para o Serpro
Cheio de dados sensíveis, GovData servia para subsidiar políticas públicas. Agora, pode ser vendido junto com o Serviço Federal de Processamento de Dados.

Mas tudo isso ainda é insuficiente. Falar de privacidade precisa ser algo embutido em boa parte do jornalismo que produzimos, tal como a pandemia de covid-19 passou a ficar, seja nas editoras de saúde, ciência, segurança pública, política e, claro, tecnologia.

Linha Fina é uma editoria de opinião que reflete o posicionamento do Núcleo Jornalismo

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