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Em 2012, quando eu trabalhava na Reuters no Rio de Janeiro, ouvi uma história (sem citar nomes) sobre um repórter de agência concorrente que sempre divulgava dados do PIB uns minutos antes de todo mundo -- uma vantagem significativa no mercado de agências de notícias, que concorrem por segundos e ajudam a pautar o mercado financeiro.

Teria ele uma fonte passando informações em primeira mão? Quem era essa fonte? Tanto os jornalistas quanto o instituto estavam doidos atrás da origem do vazamento. Soube-se depois que o repórter explorava uma vulnerabilidade no site do IBGE, que publicava um link numa área aberta, mas pouco visitada, do site minutos antes do anúncio à imprensa, às 9h.

Não sei por quanto tempo ele explorou essa vulnerabilidade, mas foi o suficiente para que desagradasse todo mundo.

Recentemente um caso semelhante foi escancarado nas redes sociais.

O jornalista Rodrigo Capelo, do Globo Esporte, falou sobre a "caça às bruxas" após a publicação de reportagem sobre um contrato do São Paulo Futebol Clube com a Sportsbet. Depois de muita confusão, soube-se que não houve vazamento de contrato, e sim que o documento estava ampla e inadvertidamente disponível para qualquer um no site do SPFC.

Vou deixar claro: não houve hack nem ilegalidade, em ambos os casos essas informações foram disponibilizadas pelas próprias instituições envolvidas. Nessas condições, sou totalmente a favor da publicação desse material.

Esses casos são interessantes porque mostram que boa parte das redações, e isso não apenas no Brasil, não se atentam para a mais básica das medidas de transparência -- falar como você obteve certa informação.

Não é má fé. A falta de transparência tem muitas origens. Por vezes os jornalistas estão mais preocupados em serem precisos e fidedignos do que transparentes, o que é justo mas não quer dizer que transparência tem que ficar para trás. Outras vezes é a correria do dia a dia, isso passa batido mesmo.

Na pandemia foi comum veículos grandes e importantes noticiarem pesquisas científicas sem linkarem para esses estudos. Eu chorei as pitangas sobre isso no Twitter em março do ano passado. Eu sei, sou chato demais, mas isso me pega de verdade.

É preciso ser justo: muito melhorou nos últimos anos no Brasil a respeito de transparência em reportagens.

Mas ainda há muitos poréns, como no caso de explorar "vazamentos" oficias em sites. E sinceramente é um grande porém: os jornalistas deveriam ter divulgado a origem da fonte. Por dois motivos principais:

  1. É uma boa prática de transparência, se você quer a confiança de quem vai ler seu material, especialmente num momento de ampla desconfiança de boa parte da população na imprensa, isso é ainda mais necessário.
  2. Ao não falar a fonte, abre-se uma janela para levantar falso testemunho contra pessoas inocentes

Só que isso significa também que a fonte vai secar. Provavelmente esse material divulgado inadvertidamente será removido e escondido, e o jornalista vai perder acesso a ele. Acabou a farra das matérias exclusivas e das divulgações precoces.

Essa é uma dualidade da vida jornalística, infelizmente, mas a resposta é (ou deveria ser) bem óbvia. Na maioria das vezes, a transparência sobre a origem de uma informação, especialmente em casos de divulgação indevida, é tão importante quanto a própria reportagem.

Há exceções, claro. Note que não estou falando sobre fontes que falam em off por medo de represálias ou que não querem ser identificadas por não terem autorização para falar, que são motivos legítimos para ocultar essa origem.

Estou falando sobre o jornalismo cobrar transparência de pessoas e organizações e ser transparente em troca, o máximo possível.

Linha Fina é uma editoria de opinião que reflete o posicionamento do Núcleo Jornalismo

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