Em vácuo de informações sobre drogas, redes sociais viram refúgio para jovens

Políticas de drogas proibicionistas e punitivistas deixam jovens num vácuo que é preenchido por conteúdo e comunidades de redes sociais – nem sempre com informação de qualidade

Essa investigação foi produzida graças ao apoio do Fundo para Investigações e Novas Narrativas sobre Drogas da Fundación Gabo


QUATORZE COMPRIMIDOS EM 24 HORAS. A dose de ritalina que Pedro* tomou o jogou num espiral de descontrole – uma crise ou uma bad trip, como falam consumidores de substâncias psicoativas.

Além de ter perdido a noção de tempo e espaço, o organismo mostrava sinais de fadiga, como se tivesse corrido uma maratona, embora tivesse passado o dia trabalhando sentado em frente ao computador.

Os choques percorriam o corpo, o coração batia em ritmo acelerado e a boca estava seca. Eram sinais de alerta. O medo era ter uma parada cardiorrespiratória.

Quem tirou Pedro dessa bad trip foi o Reddit. Ou melhor, um subreddit [nome dado às comunidades de Reddit] sobre drogas speed, categoria em que a ritalina – medicamento prescrito para pessoas diagnosticadas com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e narcolepsia – se encaixa.


É importante porque...

Redes sociais podem informar sobre sobre redução de danos, mas também indicar como comprar drogas ilícitas e abusar de remédios

Política proibicionista não evita que jovens usem drogas e deixa um vácuo de informação

Empresas de redes parecem não se esforçar para abrir espaço para informação de qualidade


Durante a crise, Pedro, que tem 24 anos, estava sozinho em casa e foi ao sub pesquisar sobre como poderia resolver aquela angústia até o efeito passar.

Leu relatos de outros usuários que já haviam passado pelo mesmo e que recomendavam beber água e assistir a desenhos – atividades para dar algum prazer e baixar o ritmo cardíaco. Funcionou.

A história de Pedro não é a única.

Jovens brasileiros usam drogas, incluindo álcool, e estão recorrendo a espaços virtuais, como TikTok, Reddit, Instagram, YouTube para se informar sobre redução de danos, efeitos de substâncias e para pedir ajuda quando a bad trip vem – um sintoma da falta de informação que deveria ser fornecida pelo poder público.

O Núcleo investigou como políticas de drogas proibicionistas e punitivistas deixam adolescentes num vácuo que é preenchido pelas redes sociais – e nem sempre com informação confiável e de qualidade.

O primeiro contato de Pedro com a ritalina aconteceu anos antes dessa crise. Ele tinha 11 anos quando um neurologista receitou o remédio após o diagnóstico de TDAH. Mas foi na universidade que a ritalina foi ressignificada: além de remédio, começou a usar a droga também para melhorar a performance nos estudos.

Pedro estava no final do curso de publicidade e propaganda, conciliando um trabalho abusivo com o TCC, e precisava "produzir muito", explicou ao Núcleo.

A dose diária de ritalina receitada pelo médico, de 3 comprimidos, passou a dobrar. De 6 foi para 10, depois 12 e por fim 14 em um único dia, quando ele teve a crise.

Mas esse aumento não foi ao acaso. No mesmo sub de Reddit que o salvou da bad trip, Pedro leu sobre como usar a ritalina para aumentar a produtividade. "Era uma pressão de dar conta de tudo – trabalho, faculdade, vida social", diz.

CURIOSIDADE E CAUTELA

Para entender alguns dos motivos que levam os jovens a usar os espaços virtuais como fonte de informação para uso de drogas, o Núcleo circulou um formulário online, que foi respondido de maneira anônima por 100 adolescentes e jovens de 16 a 25 anos.

Vale notar que essa enquete serve como indicativo para entender certos hábitos dos jovens acerca desse assunto, mas não é estatisticamente representativa da população.

Pelas respostas, foi possível perceber que, além da curiosidade, o que leva muitos deles a buscar esses espaços virtuais é também cautela e preocupação sobre efeitos colaterais, interações com outras substâncias e medicamentos e contraindicações.

Uma pessoa de até 20 anos relatou que procurou saber se usar cocaína fazia mal ao coração, já que teve vontade de experimentar, mas sofre de uma doença cardíaca. Optou por não usar.

Uma outra pessoa de 25 anos disse que recorreu ao Google para entender a interação do MDMA com um remédio para ansiedade, uma dúvida recorrente.

"Alguns desses canais oferecem conteúdos detalhados sobre como drogas atuam quimicamente no corpo, dosagens ideais, efeitos colaterais", explicou uma das pessoas que responderam, de até 25 anos.

"Utilizo esse tipo de conteúdo para compreender melhor como essas drogas atuam no meu corpo e como utilizá-las da forma menos prejudicial", completou.

Para quem não se aprofunda muito na procura, o Google é um cardápio caótico para achar informação. Ao buscar por "efeitos MDMA", a ferramenta sugere como primeiras opções links de um laboratório toxicológico, uma plataforma de cursos para estudantes de medicina, um portal de artigos científicos voltados para médicos e profissionais da saúde, Wikipédia, um artigo científico e o site de uma clínica de tratamento para "dependentes químicos".

Nenhum link oferece de maneira rápida, compreensível e confiável informações sobre os efeitos sentidos após consumir MDMA.

Para outra pessoa de até 20 anos, o Google complementa as discussões nas redes sociais, principalmente no Twitter e no Instagram.

"Gosto de saber quais são as possíveis consequências, tanto que não me aventuro em substâncias psicoativas mais fortes. Até porque também tenho histórico de usuários de drogas na família e não gosto de pensar em adquirir vícios", disse em resposta ao formulário do Núcleo.

"Consigo separar os atos presentes para não ter consequências no futuro, mas sei que não é todo mundo que é assim", acrescentou.

Uma barreira notada tanto por adolescentes quanto por criadores de conteúdo é a abundância de material em língua inglesa e sobre contextos estrangeiros. A língua, por si só, já exclui uma camada significativa de adolescentes que não falam inglês.

Frequentemente esses conteúdos chegam aos adolescentes sem que eles busquem por isso, entregues pelo algoritmo das redes sociais.

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A estudante universitária Nina*, de 22 anos, consumia cannabis ocasionalmente e tinha ouvido os amigos comentarem sobre "lavar a maconha" para retirar impurezas, mas foi um vídeo em sua for you, a página inicial com recomendações algorítmicas do TikTok, que a fez prestar atenção.

Outras medidas de redução de danos adotadas por ela depois de ver criadores de conteúdo falando sobre o tema incluem o uso de piteiras mais longas e a escolha por sedas de melhor qualidade.

Hoje, quando Nina abre o TikTok, aparecem em seu feed pessoas que falam sobre redução de danos. A maioria são apenas usuários compartilhando dicas.

"Tem muita gente lá que parece ser especialista em tudo, mas o que menos tem no TikTok é embasamento científico", destaca a universitária.

A preocupação sobre o embasamento científico não aparece com frequência entre os adolescentes. Na contramão da maioria dos relatos, um adolescente de 21 a 25 anos disse quase nunca recorrer às redes sociais e preferir ler materiais científicos para se informar sobre dosagens.

"Isso me tornou uma pessoa mais preocupada, hoje em dia não faço mais uso dessas substâncias", relatou.

POLÍTICA DE DROGAS

Embora não haja uma epidemia do uso de drogas, o fato é que jovens brasileiros consomem substâncias psicoativas.

Mais de um milhão de adolescentes relataram consumo de álcool e tabaco no ano anterior ao Levantamento Nacional sobre o Uso de Drogas pela População Brasileira da Fiocruz, divulgado em agosto de 2019.

Quase 400 mil adolescentes de 12 a 17 anos consumiram álcool e pelo menos uma substância ilícita nesse período, o que representa 2% dessa faixa etária. Para adolescentes de 18 a 24 anos, essa porcentagem cresce para 6,4%.


Quatro a cada cinco adolescentes (80%) que responderam à enquete do Núcleo disseram não estar a par de políticas públicas de redução de danos por secretarias de Saúde estaduais ou pelo Ministério da Saúde.

Quando procuram informações sobre essas substâncias junto a órgãos públicos e por meios institucionais, não encontram, não sentem confiança, ou não se vêem contemplados pelas informações que focam na abstinência como única via.

Pedro diz que nunca pensou em falar com um médico sobre as superdosagens de ritalina pois acredita que não há preparo para esse tipo de abordagem, principalmente por acreditar que a indicação seria a de não consumir.  

"Ele vai me orientar a não fazer porque é um risco à saúde, eu posso morrer fazendo isso. Só que ele não entende que se eu falar 'eu vou fazer isso', não importa o que ele fale, eu vou fazer", disse ao Núcleo.

Como ocorreu com Pedro, as redes sociais preenchem esse vazio. Mais de 80% dos jovens que responderam à pesquisa do Núcleo disseram usar a internet para se informar sobre redução de danos.

GUINADA À ABSTINÊNCIA - A POLÍTICA DE DROGAS DO GOVERNO BOLSONARO

Em abril de 2019, na cerimônia de 100 dias de governo, o presidente Jair Bolsonaro assinou decreto instituindo uma nova Política Nacional de Drogas, cuja premissa "deixa de ser de redução de danos passando a promover a abstinência", conforme nota no site do Ministério de Desenvolvimento Social.

Foi o fim da política de redução de danos, como escreveu o Conselho Federal de Psicologia à época. Na nova política, todos os tratamentos visam a abstinência. 

A pesquisa da Fiocruz citada aqui nesta reportagem foi censurada pelo governo. Concluída em 2016, só foi publicada em 2019 por revelar o contrário do que o governo queria afirmar, de que haveria uma "epidemia de drogas no Brasil", conforme revelou o Intercept à época.

A ênfase na abstinência se reflete em diversas frentes, inclusive em programas voltados ao público infanto-juvenil. É o caso do Proerd, iniciativa que leva palestras sobre drogas ministradas por policiais às escolas. Para muitos adolescentes, é o primeiro contato com informações sobre substâncias psicoativas.

Importado dos Estados Unidos, o programa se baseia na prevenção ao uso de drogas e, ao associar necessariamente o uso de drogas à violência, adota uma abordagem proibicionista. Apesar de tradicional e amplamente difundido ao redor do Brasil, há pouca evidência de que o Proerd funcione.

Para o antropólogo e pesquisador do Cebrap, Maurício Fiore, é mais interessante pensar em questões regulatórias em geral sobre como se informa sobre drogas em outros contextos – não só na escola.

"O ideal seria ter canais oficiais, ou não necessariamente oficiais, mas que divulgassem informação bem fundamentada sobre riscos, sobre formas de consumo dessas drogas", explicou ao Núcleo.

"Mas isso não significa que as informações não tinham que estar disponíveis na forma de uma política pública para todos, para diversas faixas etárias e não só para jovens. E elas não estão, então as redes sociais acabam cumprindo para o bem e para o mal o papel de informar", disse o pesquisador.

"Você não precisa incentivar o uso de drogas, mas você não pode fazer com que a informação seja simplesmente para levar o jovem a não usar", disse Fiore. 

"Ele já está em uso, não quer deixar de usar, ele só vai perder a confiança se houver um padrão de informação que fica o tempo todo tentando convencê-lo a não fazer".

O QUE É REDUÇÃO DE DANOS

Segundo a UNODC (United Nations Office on Drugs and Crime), é uma abordagem prática que emprega uma série de diferentes estratégias visando minimizar o risco de contração de doenças infecciosas, overdose ou outras consequências ligadas ao uso de substâncias.

Estratégias podem incluir mudar a maneira de consumir drogas ou garantir que o ambiente em que elas fazem uso minimize os riscos de consequências negativas à sua saúde ou qualidade de vida.

Para a especialista em redução de danos Claudine Carneiro Aguiar, existe um preconceito em se falar do assunto com adolescentes por conta de uma leitura equivocada de que "isso as ensina a fazer uso de drogas".

Claudine, que coordena a Célula Política sobre Drogas ligada à Secretaria de Saúde de Sobral (CE), diz que a redução de danos visa também retardar o uso da substância até um momento de maior maturidade neurológica e psicossocial.

Claudine atua em Sobral desde 2014 com redução de danos em diversas frentes, inclusive na escola para com gestores educacionais, diretores e professores. Como ganhos dessa abordagem mais propositiva e menos proibicionista, ela destaca a criação de um campo de diálogo.

Por meio de um programa do governo federal, o município tem falado sobre redução de danos e educação de drogas com alunos tão cedo quanto aos 11 anos.

"A gente tem discutido a ideia de uma educação de drogas, em vez de prevenção. Prevenção é aquilo que você evita, uma doença ou um mal. E nem sempre o uso de uma substância vai levar a um mal", disse Claudine.

COR DE PELE E CLASSE SOCIAL

Um olhar mais cuidadoso para a faixa etária adolescente foge da regra brasileira. Historicamente, as políticas de drogas ignoram e excluem a população jovem, decisão cujos reflexos afetam mais alguns grupos do que outros.

Uma pesquisa do Centro de Estudos em Segurança e Cidadania (Cesec) com 100 jovens cumprindo medida socioeducativa por tráfico de drogas no Rio de Janeiro mostrou que 82% se identificaram como pardos ou pretos.

A cor da pele e a classe social são determinantes também no acesso à informação. Ser jovem e usar as redes sociais para obter informações sobre drogas é uma realidade distante dos adolescentes que Bárbara* atende como trabalhadora social num Centro de Atenção Psicossocial Infância e Juventude (Caps-IJ) no centro de São Paulo.

São crianças e adolescentes encaminhadas ao CAPS para atendimento e acompanhamento, seja pela família ou pela rede pública. Há também atendimento direto no território ou na "cena de uso", o que envolve frequentemente jovens em situação de rua. Esses se enquadram no que se chama de uso abusivo ou problemático da substância.

Discutir redução de danos exige pensar em recortes que contemplem as disparidades sociais e raciais de uma faixa etária complexa quanto a de adolescentes. Escolher a substância já é um privilégio que poucos têm. 

"Quando a gente pensa na qualidade da substância que uma pessoa de classe média alta tem acesso e a da que que uma criança e adolescente em situação de rua tem, há uma discrepância gigantesca, até em risco. É um privilégio em vários sentidos", diz Bárbara. 

USO PROBLEMÁTICO E USO RECREATIVO

Segundo o ensaio 'Política de drogas e Saúde Coletiva: diálogos necessários', uso problemático compreende o consumo de psicoativos associado a risco social ou sanitário ao usuário ou a terceiros. 

Tal definição extrapola, mas inclui definições mais biomédicas, como a dependência, e acolhe também padrões de uso que embora possam ser episódicos geram problemas sociais e de saúde (por exemplo, dirigir sob o uso de substâncias, fazer uso endovenoso de drogas etc.).

Já o uso recreativo diz respeito "às pessoas que fazem uso de algum entorpecente sem frequência ou que as fazem com certa frequência, mas não se tornam dependentes. 

Ou seja, conseguem realizar suas atividades cotidianas sem necessitar consumir as drogas", segundo um artigo escrito por dois pesquisadores da Fiocruz.

CAOS DE INFORMAÇÃO

Não é preciso entender muito de redes sociais para saber que, em geral, as principais plataformas não permitem publicações sobre substâncias psicoativas. As legislações de países ao redor do mundo influenciam muito nessa tomada de lado das plataformas.

Há exceções para drogas medicinais, como a cannabis, e para bebidas alcoólicas, embora o álcool também seja uma droga.

Ao permitir apenas conversas sobre reabilitação ou tratamento, as plataformas mais tradicionais adotam uma posição normativa alinhada ao proibicionismo e impedem ou colocam barreiras para conversas informativas e de cunho educacional.

No outro extremo, redes conhecidas pela moderação mais leniente podem se tornar antros de encorajamento de comportamentos danosos.

Políticas de cada rede social sobre drogas
Quais são as regras e termos das plataformas sobre drogas?

Essa posição normativa parte do temor de responsabilização, explicou ao Núcleo João Victor Archegas, pesquisador do ITS Rio. Isso, somado à incapacidade de uma moderação individualizada, leva as plataformas a optarem por uma abordagem mais radical.

"Quando você abre o leque e permite discussões mais livres a respeito de drogas não-medicinais, você tem que ter uma tecnologia muito bem lapidada para evitar casos extremos onde você vai ter, por exemplo, compra e venda dessas drogas dentro da plataforma, discursos que incentivam o uso indiscriminado dessa droga não-medicinal e daí por diante", disse Archegas.

Como para demais temas, a moderação das plataformas para conteúdos sobre drogas é um misto de inteligência artificial com revisão humana e, como em outros casos, sabe-se que essa abordagem é passível de falhas.

Falhas que permitem, por exemplo, a compra de drogas específicas por meio da plataforma. Ao Núcleo, Pedro, da bad trip com ritalina, contou que para complementar sua dose prescrita da medicação, comprou os comprimidos por intermédio de um perfil de memes maromba, de academia, no Instagram. Em alguns stories, eles citavam o nome dessa loja.

A compra e venda se deu pelo WhatsApp, pelo qual Pedro recebeu um cardápio completo de todas as medicações e anabolizantes. A encomenda chegou por correio, disfarçada em uma embalagem do Mercado Livre.

Essa "farmácia", como eles se chamam, possui uma conta ativa no TikTok, com menos de 500 seguidores, que mostra vídeos de academia. Um dos vídeos traz um escrito "Precisando dos venenos? Link na bio". O link fixado leva ao WhatsApp. Há diversas outras contas semelhantes.

A prática é proibida sob todos os ângulos. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe a venda de medicamentos controlados, como é o caso da ritalina, pela internet.

Tanto Instagram quanto TikTok proíbem a venda de drogas e substâncias controladas nas plataformas. Contatado pelo Núcleo, o Instagram disse que não iria comentar. O TikTok não respondeu até o fechamento da reportagem.

OS CRIADORES

Quem também é prejudicado por essa postura radical da plataforma são os criadores de conteúdo, cujos posts e vídeos são consumidos por adolescentes. Para a moderação, parece não haver diferença entre o que é um encorajamento ao consumo do que é um conteúdo informativo.

Criadores relataram ao Núcleo a impossibilidade de monetizar canais e perfis. Para muitos, isso não deixa de ser um trabalho.

Gabriel Pedroza, do Que Droga É Essa, uma série de vídeos sobre substâncias e redução de danos produzidos para o canal Justificando, teve de pausar o projeto durante a pandemia para se dedicar a outros trabalhos remunerados.

A impossibilidade de promover esses conteúdos impede que eles cheguem a mais gente, explicou Ana Luiza Uwai, do Centro de Convivência É de Lei, ao Núcleo. O É de Lei atua desde 1998 com redução de danos fora da internet, tanto em cenas de uso como 'cracolândias' quanto em festas, por meio do projeto ResPire.

A gente às vezes quer patrocinar para atingir mais gente e não conseguimos, ficamos presos nessa bolha"
- Ana Luiza Uwai, do Centro de Convivência É de Lei

Quase 75 mil pessoas seguem o perfil Mundo Psiconauta no TikTok, um dos principais a falarem sobre redução de danos e substâncias psicoativas, em especial as psicodélicas, na rede social. Um dos vídeos, que fala sobre lança-perfume, tem mais de 1,8 milhão de visualizações.

As métricas altas e a simples existência do perfil são um feito expressivo, já que o TikTok proíbe completamente qualquer conteúdo sobre drogas. Inclusive, ao buscar sobre qualquer termo ligado a substâncias, a rede avisa:

"Nenhum resultado encontrado. Essa frase pode estar associada com comportamento ou conteúdo que viole nossas regras. Promover uma experiência segura e positiva é a principal prioridade do TikTok. Para mais informações, o convidamos a revisar nossas regras". A regra não se aplica para álcool.

Rafael, que administra a página junto à esposa Maria, diz que frequentemente tem algum vídeo derrubado pela plataforma. Ele já criou uma rotina de entrar em contato com o atendimento, deixar uma explicação e ter o vídeo restaurado sem penalidades. Um problema, segundo ele, é que o canal de recurso é automatizado e falta um atendimento humano.

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É justamente por essa 'fama' do TikTok que a doutora em psicologia clínica e neurociências, Bheatrix Bienemann, ainda não se aventurou a criar conteúdos nesse formato. Ao Núcleo, contou que há alguns meses vem estudando o TikTok para entender como criar conteúdo ali.

Por ora, Bheatrix optou pela Twitch, onde faz streams sobre substâncias psicoativas. Ela destaca a dinâmica do chat, que permite perguntas e interação, o que a aproxima de quem está do outro lado da tela.

Bienemann, que tem também uma especialização em dependência química, começou a produzir conteúdo durante a pandemia, muito em razão da relação entre a quarentena e o uso de substâncias.

Assim como outros criadores e especialistas, ela enxergou uma lacuna de informação pública e de qualidade sobre redução de danos e viu que poderia, com a sua bagagem acadêmica e clínica, somar ao debate.

"Sabemos que a proibição de determinada substância não reduz o uso, mas reduz as informações que a gente tem sobre as substâncias. Então esse contexto proibicionista afeta muito a circulação de informação confiável, respaldada"
Bheatrix Bienemann, doutora em psicologia clínica e neurociências

"A gente tem os fóruns de usuários, que são espaços de muito valor em relação à circulação de informação sobre substâncias, mas que muitas vezes podem não estar tão embasados cientificamente", acrescentou.

MODERAÇÃO FRACA

Esses "fóruns de usuários" comumente estão hospedados em plataformas associadas à 'moderação fraca', como Reddit e Discord. Esses espaços são um alerta do que pode ocorrer quando se permite conversas indiscriminadas sobre drogas.

O Núcleo identificou um servidor de Discord que teve dois falecimentos de membros em menos de três meses. A empresa não respondeu a questionamentos enviados pela reportagem.

No dia 27.fev.2022, a postagem anunciava o falecimento do criador daquele servidor de Discord devido a uma overdose e parada respiratória. A pessoa que deixou o anúncio escreveu:

"Não peço que vocês simplesmente parem de usar, já que todos nós sabemos que corremos o mesmo risco, mas peço que tenham responsabilidade dobrada. Vamos continuar sempre prezando pela redução de danos que o * sempre apoiou".

Em 08.mai.2022, o mesmo usuário que havia informado sobre a morte do criador do servidor trouxe uma nova notícia triste: mais um membro do servidor faleceu por uma parada cardiorrespiratória. "Não vamos fingir que não sabíamos que isso ia acontecer hora ou outra", disse.

O Discord não permite que usuários "organizem, promovam ou engajem em qualquer comportamento ilegal ou perigoso", o que inclui a venda ou facilitação da venda de substâncias proibidas e controladas.

Essas plataformas, como Discord e Reddit, terceirizam o grosso da moderação para usuários, isso exige que moderadores e administradores estejam comprometidos com regras da plataforma e em manter o espaço minimamente saudável e funcional. Foi depois de ver um sub cair por moderação inadequada que Rafael* decidiu criar e administrar o sub r/DrogasBraziLRebooted.

"Decidi assumir o cargo pois acho muito importante a existência de comunidades do tipo e não existe muita gente por aí que queira dedicar seu precioso tempo livre para moderar esse tipo de sub, pois muitos posts infringem as regras", disse em conversa com o Núcleo por mensagens no Reddit.

Ele explicou que o sub anterior foi banido pelo próprio Reddit devido à inação da moderação para remover posts de venda de drogas ou receitas médicas falsas.

"Um lugar onde as pessoas podem debater livremente e se informar sobre o assunto é crucial para salvar vidas. Já apareceu muita gente aqui querendo fazer 'merda' e descobriu o quão perigoso isso era", disse Rafael*.

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CONTEXTO IMPORTA

Uma grande crítica feita às plataformas de redes sociais é a falta de consideração a contextos locais, inclusive de religião, na moderação de conteúdo. Isso também se aplica a questões ligadas a drogas.

"É uma área da política que ainda tem pouco espaço para uma análise de contexto", diz Archegas, do ITS, sobre a Meta, empresa que abarca Facebook, Instagram e WhatsApp.

Outras áreas da política, como nudez adulta, foram sendo atualizadas para permitir exceções a depender do contexto, por exemplo, imagens de conscientização do câncer de mama ou sobre amamentação.

Essa falta de contexto fez com que um caso de um usuário brasileiro fosse parar no Comitê de Supervisão do Facebook, o Oversight Board. Esse usuário teve um post sobre ayahuasca removido pelo Instagram por uma violação às regras da empresa.

A pessoa tentou apelar ao sistema do Instagram e, sem sucesso, recorreu ao Oversight Board, que topou pegar o caso. Uma das alegações foi a de que ela já havia feito inúmeros posts sobre ayahuasca anteriormente e que apenas esse foi derrubado, o que aponta para uma incoerência da plataforma.

O ITS Rio contribuiu no caso com a submissão de um comentário público.

Em todos os vídeos no YouTube, Ana Gomes, do canal Fala, Psiconauta inclui um disclaimer: "Esse conteúdo se destina a educação sobre psicodélicos e redução de danos para o usuário, com a liberdade de expressá-lo amparada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do ADFP 187".

Isso não impede que seus conteúdos sejam derrubados, o que já aconteceu mais de três vezes, contou ao Núcleo.

Uma forma de compatibilizar liberdade de expressão com redução de danos seria a criação de grupos mais restritos, onde a informação fica mais controlada, sugere Archegas.

Os casos de Discord e Reddit, no entanto, sugerem que nem mesmo essa abordagem é a prova de falhas, o que demonstra que essa intersecção entre redes sociais e drogas ainda têm um longo caminho de amadurecimento pela frente.

Do lado das redes sociais, não há indicativo de uma flexibilização para permitir conversas informativas sobre drogas.


Enquanto isso, Pedro*, o consumidor de ritalina, continua voltando ao sub de Reddit que quase o matou, mas que também foi sua salvação. Mas agora, em vez de perguntar, ele responde dúvidas de outros que podem estar passando pelo que ele viveu.

*Os nomes marcados com asterisco foram trocados a pedido dos entrevistados, que não quiseram ser identificados.

COMO FIZEMOS ISSO

Essa reportagem foi apurada ao longo de quase três meses.

Circulamos um formulário para coletar alguns dados e entender como é a relação entre o consumo de substâncias psicoativas por adolescentes e os hábitos de informação nas redes sociais.

Usamos como fonte uma pesquisa da Fiocruz sobre uso de drogas no Brasil, a mais atualizada que existe hoje, e também entramos com pedidos de Lei de Acesso à Informação para obter dados sobre presença de CAPS-IJ no país.

Também realizamos ao menos 16 entrevistas – entre adolescentes, criadores de conteúdo e especialistas. Para proteger a identidade dos entrevistados, demos a opção de anonimato.

Pesquisamos sobre as políticas de cada rede social no que diz respeito a conversas sobre drogas e entramos em contato com as empresas quando cabível.

Reportagem Laís Martins
Arte e gráficos Rodolfo Almeida
Edição Alexandre Orrico

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