Por Laís Martins e Lucas Gelape
Análise Lucas Gelape
Gráficos Rodolfo Almeida
Colaboração Renata Hirota e Felippe Mercurio
Edição Sérgio Spagnuolo e Alexandre Orrico

A FACILITAÇÃO do acesso a armas de fogo promovida pelo governo do presidente Jair Bolsonaro tem movimentado um nicho de contas no Instagram que se identificam profundamente com a agenda armamentista. São diferentes grupos, que vão de policiais e agentes de segurança pública, passando por instrutores e atiradores esportivos e chegando até caçadores. Frequentemente há destaques para perfis de clubes de tiro e lojas de equipamentos.

O Núcleo analisou mais de 26 mil posts públicos no Instagram entre 2017 e 2021 que contêm uma série de hashtags relacionadas à divulgação de armas de fogo e da prática de tiro. Neste período, é possível ver um nítido aumento no número de publicações, especialmente a partir da posse de Bolsonaro, no começo de 2019.

Em 2020 a média de publicações com essas hashtags específicas foi quase o dobro de 2017. Os dados foram obtidos com a ferramenta CrowdTangle, do Facebook.

gráfico com aumento na média de posts com hashtags ligadas a armas por mês

Os posts analisados pelo Núcleo oferecem um olhar para dentro desse nicho no Instagram e o que ele pode representar para as políticas armamentistas no país, embora não seja possível dizer que representam todo o universo de armas do Brasil. Nossa análise envolve desde posts de sorteios de acessórios e artesanato com cartuchos de balas até anúncios de cursos de tiro específicos para mulheres.

Matéria do Núcleo no começo de abril mostrou como o Facebook tem sido utilizado para comprar e vender armas de fogo entre pessoas físicas, o que vai contra a política de comunidade da plataforma. Mas anúncios de armas por lojas físicas especializadas são permitidos por lá. O mesmo vale para o Instagram.

O Instagram foi comprado pelo Facebook em 2012.

Tradicionalmente associada à direita do espectro político, a defesa por uma maior possibilidade de que indivíduos tenham direito a comprar e portar armas ganhou espaço na agenda política dos últimos anos no Brasil.

gráfico com os principais emojis
Se antes a pauta armamentista tinha mais eco dentro do Congresso, com a chamada "Bancada da Bala", depois que Bolsonaro se tornou presidente ela ganhou lugar de destaque também no Palácio do Planalto.

Conversas e promoções mais escancaradas em torno da pauta também são um fenômeno recente, observou Natália Pollachi, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz. Antes mais restritas a espaços fechados, como fóruns na internet ou grupos no Facebook, essas discussões sobre armas se tornaram mais públicas.

"Essa migração para o Instagram, que é uma rede social mais de imagem, que começa a conectar outras pautas e que traz uma coisa de mostrar arma quase como um estilo de vida, é um pouco mais novo", disse Pollachi.

Esse tipo de visibilidade dada às armas traz duas preocupações principais. Por um lado, é problemática a disseminação da arma como objeto de desejo de consumo, quase como um tênis ou um carro. Por outro lado, diversas postagens vistas pelo Núcleo difundem também a ideia da arma como objeto de defesa pessoal e garantia de proteção.

"Isso dissemina uma falsa impressão de que a arma vai te trazer segurança, quando a gente sabe, algo que pesquisas já mostraram, que mais armas em circulação no Brasil trazem mais homicídios", acrescentou.

"A arma é um produto controlado pelo Exército brasileiro e a gente entende que ela tem que continuar sendo vista dessa forma, já que tem potencial de causar um dano coletivo muito grande."

- Natália Pollachi, gerente de projetos do Instituto Sou da Paz

gráfico com aumento na média de posts com hashtags ligadas a armas por mês

Manifesto dos pesquisadores contra a revogação do Estatuto do Desarmamento

Em 21 de setembro de 2016, 56 especialistas brasileiros, em áreas como direito penal, saúde pública, estatística, sociologia e relações internacionais, entre outras, assinaram um manifesto contra a revogação do Estatuto do Desarmamento e listaram dezenas de estudos.

Acesse o manifesto na íntegra aqui

"Inegavelmente, o apelo à aprovação desse projeto de lei ganha força no rastro da sensação de insegurança que vivemos no Brasil. No entanto, a violência é um fenômeno complexo", disse a carta.

"Estudos científicos que lograram abordar esse problema de forma estatisticamente adequada geraram evidências empíricas robustas sobre a relação entre armas de fogo e violência. Esses estudos, conduzidos em inúmeras instituições de pesquisa domésticas e internacionais, levam à conclusão inequívoca de que uma maior quantidade de armas em circulação está associada a uma maior incidência de homicídios cometidos com armas de fogo."

ATIRAR, COMO NOS EUA

Uma característica marcante dessas postagens é a presença de elementos nacionalistas: a bandeira brasileira (🇧🇷) é o emoji mais utilizado, enquanto um símbolo que remete às cores nacionais (🔰) aparece em quinto lugar.

O segundo emoji mais utilizado é o de telefone (📞), o qual, junto a outros símbolos comuns de telefone celular (📱) e cartão de crédito (💳) indicam potencial interesse comercial.

Para além do nacionalismo brasileiro, na 10a posição dos emojis mais comuns está a bandeira estadunidense (🇺🇸). Não é à toa: a popularidade da agenda armamentista no Brasil frequentemente tem inspiração na direita dos Estados Unidos e pode ser vista como um "elemento importado" de lá, segundo David Magalhães, coordenador do Observatório da Extrema Direita.

"É uma mescla da ideia de que bandido bom é bandido morto com a visão da defesa da propriedade e da família pela arma. Parte desse armamentismo é importado da direita dos EUA e parte é em reação ao ambiente de caos na segurança pública que se instalou no Brasil", avaliou Magalhães em entrevista ao Núcleo.

gráfico com os principais emojis

ATIRAR, MAS COMO POLICIAL

As hashtags mais usadas nessas postagens apontam para outro grupo importante: o de policiais e agentes de segurança pública. Das 10 hashtags que aparecem em mais posts, 7 fazem referência direta ou indireta a esse grupo.

Além disso, o terceiro emoji mais utilizado é um policial (👮). Muitas postagens mostram o cotidiano dos policiais e tudo que os rodeiam: viaturas, fardas, operações e, claro, armas. Outras publicações promovem cursos de tiro ou treinamentos táticos.

Um dos perfis mais ativos identificados na análise do Núcleo pertence ao policial federal Danilo Campetti, que tem 37,6 mil seguidores. Além de agente da PF, ele se descreve como professor de tiro e professor de curso para segurança de dignitários. A postagem mais recente de sua conta mostra um #TBT (foto tirada no passado), mais especificamente durante uma operação do Grupo de Pronta Intervenção (GPI) da Polícia Federal, segundo a legenda.

Em 21 de março, Campetti fez uma postagem desejando feliz aniversário a Jair Bolsonaro e divulgou fotos em que aparece junto ao presidente. Em junho de 2020, o policial federal usou sua conta para postar um vídeo sobre as obras de transposição do rio São Francisco, iniciadas na gestão do ex-presidente Lula e concluídas na gestão Bolsonaro.

O uso de redes sociais por policiais é uma questão controversa por utilizar símbolos da polícia -- emblema da força, armas, viaturas, farda -- para promoção pessoal, pontuou ao Núcleo Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas e associado ao Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

"Há polícias fora do Brasil - nos EUA, Chile, Inglaterra, por exemplo - que são bastante restritivas em relação àquilo que pode utilizar os símbolos das corporações", disse.

Há ainda casos em que as redes sociais são usadas por policiais para atividades políticas, o que por si só contraria a ideia da polícia como uma força neutra, explicou Alcapadini. Embora os códigos disciplinares das corporações tenham escopo para punir ou evitar tais comportamentos, falta vontade política. "As polícias são coniventes com isso", acrescentou o professor.

"É um problema que persiste há muito tempo e que as corregedorias e comandos das polícias deveriam tomar atitudes, mas não tomam porque essas figuras podem se eleger deputados ou senadores e defender a pauta corporativista da polícia."

- Rafael Alcadipani, da FGV

O número de policiais militares na política vêm crescendo nos últimos anos. Entre 2010 e 2018, a proporção de agentes de segurança que se candidataram e foram eleitos triplicou, segundo dados publicados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Cresceu também o incentivo para que policiais busquem cargos, tanto por parte das associações policiais quanto por partidos políticos, escreveram Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima em texto publicado pela revista piauí em outubro de 2020.

Alcapadini defende ainda que se investigue a promoção, nas redes sociais, de clubes de tiro por policiais ou policiais que sejam patrocinados por fabricantes de armas, já que isso configura uma utilização do símbolo público para ganhos privados.

Em seu perfil, o policial civil de São Paulo Diego Del Rio, promove para seus 444 mil seguidores os cursos do Projeto Policial, uma plataforma de cursos de armamento e tiro, assim como sorteios.

Apesar de majoritariamente composto por homens

87% dos PMs do país são homens, segundo dados publicados em 2020 pela Secretaria Nacional de Segurança Pública.

, também existe um grupo de postagens voltadas a policiais mulheres. Não por acaso, três das hashtags que mais aparecem são #mulheresarmadas, #mulheresdefarda e #mulheresfardadas.

As postagens mostram as agentes vestindo fardas, sozinhas ou acompanhadas de colegas, dentro ou ao lado de viaturas. Em algumas, elas seguram armas ou as portam no coldre.

Assim como no caso dos homens, há agentes que também promovem cursos ou clubes de tiro esportivo. Uma destas influenciadoras é a policial civil paranaense Bianca Dal-Cól, que tem 60 mil seguidores. Em uma das postagens, ela veste uma camiseta com a frase "Um povo armado jamais será escravizado", frase dita pelo presidente Jair Bolsonaro durante a reunião ministerial em abril de 2020.

"Não vejo relação entre meu crescimento e o atual governo. Meu nicho são maior parte seguidores que pretendem seguir carreiras policiais ou que já são policiais. Entusiastas do mundo do tiro são uma parcela muito menor", disse Dal-Cól em resposta a uma mensagem do Núcleo no Instagram.

Além de policiais, a #mulheresarmadas também inclui posts de civis que são atiradoras esportivas. O nicho de atiradoras também vem sendo explorado por fabricantes de armas: no Dia Internacional das Mulheres, a fabricante brasileira Taurus lançou uma edição especial de um revólver cor-de-rosa com a inscrição mulheres fortes.

AGENDA DE ARMAS DE BOLSONARO

A força da agenda de grupos armamentistas no governo Bolsonaro é materializada nos decretos editados pelo presidente que flexibilizam regras de comércio e porte de armas. No universo de postagens coletadas, os decretos são mencionados em geral para comunicar a mudança de regras. Além disso, o número de postagens tende a aumentar nos dias seguintes à edição dos decretos.

Na segunda-feira, a ministra do Supremo Tribunal Rosa Weber, em decisão individual, suspendeu parte dos decretos sobre o porte e a posse de armas de fogo editados pelo presidente em fevereiro que entrariam em vigor na terça, dia 13. A decisão será enviada agora ao plenário do Supremo, que pode manter ou rever a determinação da ministra.

Vários dos pontos dos decretos suspensos pela ministra dizem respeito à categoria CACs, a sigla para Caçadores, Atiradores Esportivos e Colecionadores. Esse grupo de quase 500 mil brasileiros registrou quase 138 mil novas armas em 2020, comparado com pouco mais de 78,3 mil no ano anterior, segundo dados obtidos pelo Núcleo junto ao do Exército, jurisdição responsável pelos CACs.

ATIRAR, MAS POR ESPORTE

PUBLICAÇÕES de armas no Instagram também têm conexão com o tiro esportivo. Esta foi a hashtag que apareceu no terceiro maior número de posts coletados (quase 6 mil). Os posts analisados pelo Núcleo mostraram contas de clubes de tiro, centros de treinamento tático e lojas de tiro esportivo bastante ativas. Elas oferecem orientações para interessados na prática, sorteiam cursos e promovem serviços.

Dentro da sigla CAC

Caçadores, Atiradores Esportivos e Colecionadores.

, os atiradores esportivos são o maior grupo -- há 290,3 mil registros ativos de atiradores esportivos no Brasil, indicam dados do Exército obtidos pelo Núcleo via Lei de Acesso à Informação. Isso se compara a 135 mil registros de colecionadores e 185,5 mil registros de caçadores.

Em 2020, o número de clubes de tiro espalhados pelo país explodiu. De 151 em 2019, cresceu para 1.345 no ano seguinte, segundo dados do Exército coletados pelo jornal O Globo. Bolsonaro é entusiasta de tiro esportivo e em abril passado, no início da pandemia do coronavírus, publicou no Facebook um vídeo em que visitou um estande de tiro e fez disparos.

Além disso, também existem postagens de competições esportivas, como as publicadas pelo Comitê Paralímpico Brasileiro

Nas Olímpiadas de 2016 no Rio de Janeiro, o atleta brasileiro Felipe Wu conquistou uma medalha de prata no tiro esportivo, quebrando um jejum de 96 anos sem medalhas para o Brasil nesta modalidade.

. O tiro não é um esporte tradicional no Brasil, mas a prática vem ganhando tração nos últimos anos.

gráfico com automento no número de certificados pra tiro esportivo

ATIRAR, MAS EM JAVAPORCOS

Há ainda postagens que se relacionam com temáticas menos urbanas, como caçadas e pesca. São publicações que mostram essas atividades ou divulgam produtos relacionados a elas, como facas e armas de fogo.

Um dos perfis da temática de caça é o Homem do Mato Oficial, com 124 mil seguidores. A conta publica fotos de animais caçados, de pesca, de armas -- rifles, espingardas e pistolas -- e também imagens supostamente de humor. Esta conta ainda está ligada a uma outra, visível apenas para quem a segue que traz na descrição: "Natureza nua e crua, vídeos violentos de animais" com o emoji 🔞.

Historicamente, a cultura pró-armas é mais disseminada no campo, inclusive pela realização de caçadas.

Entre 2014 e 2016, o antropólogo gaúcho Caetano Sordifez uma imersão no campo na fronteira sul do Brasil com o Uruguai para acompanhar a implementação de técnicas de manejo do javali selvagem, considerado uma espécie exótica invasora.

Sordi, que é doutor em antropologia social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), observou a negociação entre diferentes atores: técnicos do ICMBio, proprietários rurais e caçadores de javalis.

Embora estivesse fora do foco de sua pesquisa, Sordi notou que já naquele momento era perceptível uma atmosfera pró-armas e um culto à imagem de Jair Bolsonaro, até então um deputado federal, principalmente entre caçadores.

"Ao mesmo tempo que é uma plataforma de difusão de técnicas de caça, das fotos dos animais abatidos, essa coisa do troféu de caça, também é uma plataforma de extrema direita."

- Caetano Sordi, doutor em antropologia social pela UFRGS

Em 2013, o Ibama autorizou a caça do javali selvagem, o que motivou a articulação de redes e grupos de caça, inclusive virtuais. Um exemplo de página que revolve ao redor da caça dos javaporcos é Aqui Tem Javali. O antropológo acompanhou essas redes durante algum tempo.

Segundo o pesquisador, já existia um antipetismo muito forte dentro dessas redes e uma série de argumentos na lógica do "caçamos javalis, mas temos que caçar corruptos também", disse Sordi em entrevita.

COMO FIZEMOS ISSO

O Núcleo coletou 26.924 posts únicos de Instagram, por meio da API de busca do CrowdTangle a partir de uma lista de hashtags identificadas por exploração manual de postagens sobre armas naquela rede social. As hashtags foram: #mulheresarmadas, #campanhadoarmamento, #glockbrasil, #glockdobrasil, #tiroesportivobrasil, #ipscbrasil, #mulheresarmadas, #tiropratico, #taurusarmas, #tiroesportivo, #naoaodesarmamento, #atiradoras, #mulheresnotiro.

Não podemos afirmar que essas postagens e contas identificadas são representativas desse universo no Instagram. Elas são uma janela que nos permitiu observar, indutivamente, temas importantes dentro desse conjunto.

Para identificar temas relevantes, nos guiamos pelas hashtags, emojis e palavras mais usados. Também nos guiamos por algumas palavras-chave, como sorteio e venda, que apareciam muitas vezes ao explorarmos os dados.

Os dados do Exército citados na matéria foram obtidos via Lei de Acesso à Informação em janeiro.

O Núcleo também entrou em contato com as contas de Instagram citadas nesta matéria. Até o fechamento, além de Bianca Dal-Cól, apenas uma pessoa retornou dizendo que não poderia responder.

O Núcleo não entrou em contato com o Instagram por não ter identificado irregularidades que dizem respeito à plataforma.


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