Durante três horas, Frances Haugen, ex-gerente de produtos da divisão de integridade cívica do Facebook, respondeu perguntas de uma comissão do Congresso dos Estados Unidos nesta terça-feira (5.out) e manifestou sua visão sobre os problemas da empresa e possíveis caminhos para consertá-los. (Vídeo na íntegra, no YouTube.)

Ela repetiu alguns dos argumentos apresentados no 60 Minutes, no domingo (3), quando veio a público, como a alegação de o Facebook priorizar o lucro em detrimento da segurança e bem-estar dos usuários, e de manter informações vitais fora do alcance do público.

Os congressistas norte-americanos deram bastante ênfase à pesquisa interna do Facebook, vazada por Frances, que relaciona problemas psicológicos em meninas adolescentes ao uso do Instagram.

Em sua defesa, após a publicação de reportagem do Wall Street Journal baseada nos materiais cedidos por Frances, o Facebook havia dito que a pesquisa indicava que uma minoria desse público era prejudicada pelo Instagram. Em dado momento, Frances contestou essa defesa usando uma analogia popular na sessão — com o tabagismo:

“No caso dos cigarros, ‘apenas’ cerca de 10% das pessoas que fumam desenvolvem câncer de pulmão. Então a ideia de que 20% dos seus usuários podem confrontar problemas psicológicos sérios e que isso não seria um problema é chocante.”

Outros tópicos abordados:

  • Frances criticou o poder desmedido de Zuckerberg, CEO e detentor de 58% das ações com direito a voto do Facebook. “Não existem outras empresas tão poderosas que são controladas unilateralmente dessa forma.”
  • Ela criticou a falta de transparência, reforçada nos últimos meses por atitudes hostis do Facebook a pesquisadores externos. “O cerne do problema é que ninguém entende as escolhas destrutivas do Facebook melhor que o próprio Facebook, porque só o Facebook consegue olhar suas entranhas.”
  • A respeito da Seção 230, lei norte-americana que isenta as plataformas virtuais de responsabilidade pelo conteúdo publicado por usuários, Frances acredita que seja possível e necessário responsabilizá-las pelo algoritmo e, no caso dos feeds, revertê-los à distribuição cronológica.

Após a sessão, o Facebook contra-atacou. Mark Zuckerberg e o departamento de relações públicas divulgaram notas criticando a caracterização feita por Frances e desqualificando-a como fonte confiável porque seu cargo no Facebook era de baixo nível, sem poder de tomada de decisão.

O único ponto em que Frances e Facebook convergiram foi na necessidade de regulação. Sobre isso, chamou a atenção a fala da senadora democrata Amy Klobuchar: “Não temos feito nada para modernizar nossas leis de privacidade neste país. Por quê? Porque há lobistas em cada canto deste prédio contratados pela indústria de tecnologia.”

Posteriormente, ao site Politico, ela repetiu a crítica: “É como aquele jogo de whack-a-mole. Toda vez que acho que fiz alguma coisa, outro lobista aparece. [O Facebook] literalmente contratou muita gente nesta cidade.”

“O Facebook quer que acreditemos que os problemas que enfrentamos são impossíveis de serem resolvidos. Que acreditemos em falsas escolhas. Eles querem que você acredite que precisa escolher entre um Facebook cheio de conteúdo extremista e polarizador ou perder os valores mais importantes sobre os quais nosso país foi fundado, a liberdade de expressão.”
Frances Haugen.

Em paralelo à sessão no Congresso norte-americano e à participação no programa de TV 60 Minutes, Frances enviou à SEC (equivalente à CVM no Brasil) denúncias de que o Facebook enganou investidores em relação aos esforços para conter abusos na plataforma e à publicidade, e afirmou que tem mais documentos internos ainda não divulgados.

Via Politico (em inglês), Wall Street Journal (em inglês, com paywall), CNBC (em inglês), @zuck/Facebook (em inglês).

Este conteúdo foi publicado em parceria com o Manual do Usuário

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