Um lugar onde Roger Moreira é livre para combater o comunismo, Jair Bolsonaro é idolatrado sem ressalvas e médicos defensores do tratamento precoce contra covid-19 promovem desinformação sem serem incomodados. Este paraíso é o Gettr, clone do Twitter lançado no último domingo que se define como "uma rede social não tendenciosa para pessoas de todo o mundo”.

No primeiro dia de lançamento, a rede criada por Jason Miller, empresário e um dos conselheiros do ex-presidente Trump, registrou 500 mil inscrições. No Brasil a plataforma parece ser inicialmente atrativa para médicos cloroquiners, que com frequência têm postagens e contas suspensas em outros serviços por espalharem desinformação sobre "tratamento precoce" para covid.

Um deles é Ricardo Ariel Zimerman, médico defensor da cloroquina e crítico às vacinas, recentemente convocado pela CPI da Pandemia. No Gettr, Ricardo já tem mais de 2 mil seguidores. No Instagram, plataforma que não deixa mais o médico realizar lives, ele acumula mais de 80 mil.

Dr. Marcus Pompeu, que segundo o LinkedIn é pediatra na Santa Casa Anna Cintra, em Amparo (SP), encontrou no Gettr um local para destilar desinformação médica e homofobia. Ele já teve diversas contas suspensas no Twitter.

O conteúdo dos médicos serve de combustível para desinformação e posts de exaltação à medicamentos como ivermectina e azitromicina. O senador Flávio Bolsonaro e a deputada federal Carla Zambelli anunciaram que estão na Gettr. Flávio tem 1,2 milhão de seguidores e já ganhou o selinho de verificação da rede.

A festa deve durar pouco. David Nemer, pesquisador e professor da Universidade de Virgínia, nos EUA, estuda consumo de desinformação em aplicativos de mensagem e diz que o Gettr já nasce sob pressão de Apple e Google. "Temos o episódio do Parler, em que o aplicativo foi removido das duas lojas online. Se eles não cumprirem com os termos de serviço, eles serão banidos", completa.

O Tilt publicou uma reportagem explicando mais sobre a nova rede social - que inclusive já foi até hackeada.


É importante porque...

  • Trumpistas estão em busca de espaço na internet após o ex-presidente ser desplataformizado em várias serviços
  • No Brasil, pessoas anticiência e que difundem desinformação também estão perdendo lugar nas redes tradicionais

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